
Irmandade da Misericórdia de Buarcos
Apesar de ser desconhecida a data de fundação da Irmandade da Misericórdia de Buarcos, e de alguns autores afirmarem que foi estabelecida ainda no reinado de D. Manuel I, tem-se apenas como certo que em 1576 já existia e tinha templo. Esta data encontra-se inscrita no lintel da porta da Casa dos Penitentes e que indica, provavelmente, o ano em que foram terminadas as obras da estrutura primitiva do templo, que foi fundada e pertencia à população das duas vilas: Redondos e Buarcos.
De acordo com informações das Memórias Paroquias de 1721, e das Memórias Paroquias de 1758 tinha um Hospital que era administrado pelo Provedor e Irmãos da Misericórdia, onde se recolhiam os pobres e os peregrinos.
Este hospital deveria funcionar no antigo edifício do Albergue, que serve hoje de escritórios à Instituição da Misericórdia. Mantém este edifício na sua fachada, colocada em nicho, uma bela imagem em pedra, seiscentista, de Nossa Senhora da Expectação (do Parto), mais vulgarmente conhecida por Nossa Senhora do Ó, iconograficamente representada com a mão esquerda sobre o ventre já muito saliente e a mão direita levantada.
A Igreja da Misericórdia apresenta um modelo simples, de linhas chãs, cuja fachada de linhas austeras evidencia a estrutura do portal barroco, de moldura rectangular com friso, encimado por um nicho, onde foi colocada uma imagem quinhentista da Mater Misericordiae, da escola coimbrã. O nicho é ladeado por duas volutas e rematado com uma arquitrave de pináculos, sobrepujada do escudo das armas nacionais e, mais acima, a cruz de Cristo.
Junto ao nicho foram rasgadas duas janelas de vãos de cantaria ondeada, que iluminam o coro-alto, e do lado direito da fachada foi colocada uma pequena sineira.
Na fachada lateral norte sobressai o pequeno e elegante portal de verga reta, ladeado por pilastras caneladas e lintel decorado com ossos e cravos, símbolos da crucificação.
Sobre a arquitrave assenta um pequeno templete, que é reproduzido em talha dourada no remate do retábulo-mor.
O espaço interior, de planta longitudinal e nave única, apresenta um modelo especificamente utilizado na região do Baixo Mondego na segunda metade do século XVI, sendo evidentes as semelhanças com o templo da Misericórdia de Tentúgal. A capela-mor foi substituída por um presbitério, com acesso por dois lances de escadas laterais sobre o qual foi edificado o retábulo-mor, que se desenvolve em três arcos de volta perfeita a preencher todo o fundo da igreja. Neles se encontram três retábulos de madeira, policromada e dourada com telas pintadas. Datam de cerca de 1600 e representam: no retábulo central a Anunciaçã e a Visitação com Sta Ana, S. José e S. Joaquim, nos retábulos laterais está representado o nascimento de Cristo, com a Adoração dos Magos de um lado e a Adoração dos Pastores no outro lado.
Na zona inferior do presbitério encontra-se um interessante grupo escultórico em pedra, de finais do século XVI, com 7 imagens em redor de Cristo, representando a Deposição no Túmulo, evidentemente inspirado nas Deposições de João de Ruão.
Do lado esquerdo da nave encontra-se a porta de acesso à Casa dos Penitentes. De moldura rectangular, apresenta no lintel a legenda "Tal fui como ti, tal serás como mi", com uma caveira e a data 1576. Sobre esta, a Tribuna dos Mesários, com colunas jónicas sobre pedestais. Ainda deste lado encontra-se a capela onde esta colocada a imagem de Cristo com a cruz ás costas que ainda sai em procissão do Senhor dos Passos.
Do lado direito da nave destaca-se o púlpito em pedra ornado de pilastras jónicas.
A nave apresenta revestimento de azulejos seiscentistas azuis e brancos, datados de cerca de 1651. Junto ao batistério subsistem duas composições simples de azulejos hispano-árabes .
Na sacristia destaque para o teto de madeira, otogonal, com cantos em leque.
O imóvel , assim como todo o seu recheio (móvel e integrado) encontra-se classificado com INTERESSE PÚBLICO.
Manuela Silva | 2016